* LEITURAS PERTINENTES E TENDENCIOSAS
Por Nilson Calasans, CD Periodontista, ngcr@ig.com.br
Raul Sippel, Professor de Inglês e Mestrando em Língua Portuguesa (UERJ), raulsippel@ig.com.br
A tentativa de controle e tratamento das cáries e doenças periodontais – “gengivais” -, as maiores causas das perdas dentárias em humanos, data de tempos remotos e ancestrais. Alquimistas, curiosos, barbeiros, alferes, bruxos, macumbeiros e, mais recentemente, acadêmicos, pesquisadores e cientistas, têm se debruçado sobre metodologias diversas, no sentido de compreender suas etiologias – suas causas -, evoluções e possibilidades de erradicação. Entretanto, cada vez que se depreendem técnicas conservadoras e preservadoras dos elementos dentários, novas técnicas restauradoras e de reabilitação são descobertas, provocando verdadeira corrida mutiladora, em prol da viabilização das novidades sedutoras e muito rentáveis. Desta forma, a Odontologia, como todas as demais profissões, no Ocidente, caminha entre seus interesses éticos e mercadológicos.
No final do século XIX, por exemplo, início do século XX, fazia-se grande avanço no desenvolvimento das técnicas de conservação dos dentes naturais, quando se popularizou o paladon, permitindo a possibilidade da confecção, em massa, das dentaduras. Pois, durante quase 70 anos, as técnicas conservadoras foram inibidas, quase abandonadas, e dentaduras de todas as sortes – que azar! – passaram a ser feitas, descriteriosamente e a rodo, prestando grande desserviço à saúde dos indivíduos, em todo o mundo. Pois um século depois, após os escandinavos terem desenvolvido metodologias de erradicação de cáries e doenças periodontais até em Saúde Pública, e tê-las divulgado pelo mundo, com sucesso; após grande desenvolvimento de um quase prevencionismo e compreensão da importância do controle dos fatores de risco que levam às doenças bucais, para que se pudesse controlá-las, a neoliberalismo abarcou a Odontologia e, com ele, veio a Globalização, trazendo os enxertos e implantes – utilíssimos e importantíssimos quando bem indicados e realizados. Popularizaram-se, o ensino tornou-se indústria voraz, parcial e tendenciosa e, com a fabricação em massa dos metais biocompatíveis e seu alardeamento hegemônico, a demanda crescente por implantações – regida por um imaginário equivocado, de panacéia ou remédio para todos os males -, fez, novamente, cair por terra a preocupação de se manter a dentição natural saudável, ao longo da vida. Assim, cada vez fica mais caro perder dentes. E, agora, implantes, que se perdem, não por rejeição, mas pelas mesmas razões que levaram à perda dos dentes naturais, doenças perimplantares; não erradicação dos processos inflamatórios e infecciosos, nos tecidos de proteção e sustentação dos implantes.
Na última década, a Biologia Molecular e as correntes multi/transdisciplinares têm nos permitido compreender melhor a relação entre problemas odontológicos e doenças sistêmicas, como as cardiopatias, a hipertensão arterial, o diabetes, a aterosclerose, as imunodeficiências e outras enfermidades. Bactérias deletérias aos dentes e gengivas, realmente, podem se alojar no músculo cardíaco, levando ao seu colapso. Lembra-se da velha teoria do foco à distância? Pois é, voltou! A maior parte dos hospitais, mesmo no Brasil, já não realizam cirurgias cardíacas em pacientes portadores de “infecções gengivais e ósseas”, por exemplo; exatamente por isso. Também, nas doenças periodontais severas, há uma corrosão na parede interna dos vasos sanguíneos, predispondo a entupimentos arteriais – e consequente aumento da pressão arterial -; problemas cardiovasculares das mais diversas ordens e consequências. O diabetes agrava as doenças gengivais e periodontais e dificulta seu controle, uma vez instalado; retroalimentação. Tudo muito bem, a questão é séria, o assunto merece atenção. Agora, a importância de se preservar dentes está para muito além de seus aspectos funcionais ou estéticos. Mais do que nunca, é quesito de saúde geral. Bravo!
Entretanto, a leitura e interpretação destes trabalhos científicos, recentes, e já merecidamente consagrados, carecem de serenidade, honestidade e discernimento. Temos que ser muito precisos e verdadeiros conosco e com nossos clientes, e com a mídia; outrossim, corremos o risco de, tendenciosamente, macularmos as informações que dos laboratórios de pesquisa nos chegam, com deformações, geradas por conveniências clínicas. A Odontologia, em sua história, já vaga repleta de interpretações mal compreendidas e tendenciosas e, com o tempo, tem sido a maior perdedora de seu próprio crédito perante a opinião pública, a herdar cada vez maior incompreensão do chamado público leigo. Exemplo: chegam informações novíssimas, que tentam associar a presença de bactérias causadoras de algumas doenças gengivais à obesidade; como se as doenças periodontais predispusessem à obesidade. Calma. Observa-se que obesos severos são, comumente, portadores de periodontopatias, onde tais micróbios estão regularmente presentes. É necessário cuidado. Obesos, não raramente, são comedores compulsivos de açúcares, carboidratos e amidos. O que faz com que suas bactérias sejam mais agressivas, patogênicas, grossas, espessas; sejam mais rápidas e mais destrutivas em suas ações de se aderir e agredir dentes. As bactérias que colonizam a gengiva também se formam mais rapidamente, a partir dessa ingestão. Este sujeito, que tende a ser menos cuidadoso consigo e com seus autocuidados, vai precisar, possivelmente, de maior quantidade de trabalhos restauradores que, mesmo quando de grande qualidade, são fatores de risco expressivos para aderência de novas bactérias. Assim, depreende-se, pode se concluir que não são as tais bactérias, comuns nas doenças gengivais, que levam à obesidade, mas que, pessoas com processo de alimentação desregrada e compulsiva, tendem a ser obesas; cujos hábitos indisciplinados de vida podem conduzir às doenças periodontais e odontológicas, em geral. Uma vez acometidas pelo mesmo diagnóstico periodontal, estes indivíduos passarão a apresentar as mesmas bactérias, inerentes àqueles problemas gengivais e ósseos. Não ao contrário! Então, veja, temos que ser éticos vigilantes dos nossos interesses e conveniências, todos; mormente quando se tratam de profissionais de saúde. O grande, verdadeiro – e único – patrimônio que se tem, é o biológico!
É apenas um exemplo, que aponta para uma perigosa tendência, muito atual, de leitura e interpretação selvagens e equivocadas de trabalhos científicos, pela qual poderemos, mais uma vez, no futuro, pagar elevado preço e herdar maior descrédito.
É preciso informar as pessoas acerca da possibilidade de manterem seus dentes naturais saudáveis ao longo da vida, por mais anticomercial que isso possa, em última instancia, ser. É preciso motivá-las para tal, ainda que nos deparemos e tenhamos que enfrentar a falta de vocação para a vida e para a saúde, em tantos. E a agressividade louca do marketing e da indústria, que parecem querer coroar, premiar e enaltecer enfermos, angustiados, doentes, mutilados e reabilitados, com ouro, porcelana, hidroxiapatita, resina, titânio. Quanto mais doente, mais rentável. “Meu herói, você é especial!” – diz o sistema, e acredita a vaidade humana; tola, explorada e solitária. Quem sabe, daqui há vinte ou trinta anos, estejamos perdendo dentes clonados pelas velhas cáries e doenças gengivais; que máximo, que moderno! O mundo anda tão louco que se instituiu, tacitamente, uma relação constrangedora entre suposta vagabundagem e vida saudável; entre status, doença, estresse, infelicidade, ser bem-sucedido, e gastos abusivos com metidas incapazes de, isoladamente, garantir vida - quer para dentes, quer para organismos como um todo. Nada é mais rentável do que o caos, nada é mais explorável do que a solidão e a infelicidade! É preciso que estejamos atentos. Porque assim, e só assim, colocar-se-á a Odontologia, e as demais profissões de saúde, em um patamar justo, plausível, ético e respeitável. Por menos vocacionadas para a vida e para que felicidade que sejam os seres humanos. E por mais complexa e enigmática que seja a relação que cada sujeito tem com essa boca. Que parece suscitar ódio, aversão, amor, preocupação, temor, fixação, nas pessoas; uma série de sentimentos confusos, que acabam deslocados para o dentista; mas, pelo visto, é a boca que assusta ou fascina. Afinal, que boca é essa, qual o seu simbolismo e o que captura, em forma de desespero ou fascínio?


